Passar um dia na serra – uma tradição de fim de semana de muitas famílias madeirenses – tem algo de mágico. É a oportunidade de sentir, em simultâneo, a beleza selvagem das paisagens da ilha e a sua riqueza, dos picos imponentes às florestas escondidas.
O nosso dia começou no Funchal, por volta das 10h00, com um passeio que nos levaria a alguns dos lugares mais deslumbrantes da Madeira. A primeira paragem foi no Poiso, para um café no Abrigo do Poiso, um ponto de encontro informal para viajantes, aventureiros e caminhantes que iniciam ali o seu dia de atividades nas serras madeirenses. Com a cafeína a dar-nos ânimo e os picos à nossa espera, seguimos viagem rumo ao Pico do Areeiro, o terceiro mais alto do arquipélago, onde chegámos um pouco depois das 11h00.

Àquela altitude, o ar era fresco e as nuvens moviam-se velozmente pelos cumes, compondo um cenário em movimento difícil de esquecer. A luz era perfeita para fotografias e havia ainda recantos tranquilos para apreciar em silêncio. Não resisti a pensar como deve ser arrebatador ver o pôr do sol daqui.

Daí seguimos para Santana, terra das famosas casinhas de colmo e dos vales verdejantes. Pelo caminho, passámos pelo Ribeiro Frio e São Roque do Faial, atravessando a antiga Ponte da Ribeira da Metade, em pedra, que parece saída de um filme de cinema.

Um pouco mais à frente, entrámos com o nosso 4x4 num caminho de terra batida, que nos levou, com alguma emoção, ao Pico das Pedras, ponto de partida para uma pequena caminhada.
Escolhemos o trilho PR 9.1 – Um Caminho Para Todos, uma rota curta e acessível, que serpenteia pela luxuriante floresta Laurissilva. É um percurso sereno, sombreado por árvores centenárias e acompanhado pelo canto das aves e pelo som da água a correr.

Cerca de meia hora depois, chegámos ao Parque Florestal das Queimadas, um dos locais de piquenique mais emblemáticos da Madeira.
Aqui, o passeio transformou-se em celebração. Começámos a preparação do nosso almoço: espetada – a icónica carne de vaca em espetos de pau de louro, grelhada na lenha.

Depois de dias a experimentar restaurantes sofisticados no Funchal, foi um prazer regressar a uma refeição simples e deliciosa. Carne, batata, pão e vinho. Perfeito!
Quando contei a amigos locais onde ia almoçar, sorriram: “mais madeirense do que isso é impossível”, disseram. E é verdade. É exatamente o que muitas famílias fazem ao fim de semana. O ambiente da floresta era encantador – ali sente-se uma verdadeira comunhão com a natureza.

Chegada a hora de abrir a garrafa de vinho, apercebemo-nos de que não tínhamos saca-rolhas. Foi preciso improvisar e, entre gargalhadas, acabámos por abrir a garrafa com a ajuda de uma bota e de uma parede. Um momento divertido que tornou o almoço ainda mais memorável. Partilhar esta refeição no coração da floresta foi muito mais do que comer: foi estarmos juntos, trocar histórias e viver uma tradição madeirense profundamente enraizada. Agora percebo por que é que os locais valorizam tanto estes encontros.

Depois do almoço, arrumámos tudo e seguimos em direção ao Funchal, com uma última paragem para café junto à entrada do Parque Temático da Madeira.
A viagem de regresso foi, por si só, uma experiência: da frescura húmida da serra ao céu limpo e ensolarado do Funchal. Em menos de uma hora, a Madeira mostrou-nos todas as suas “estações”. É incrível como uma ilha tão compacta oferece tamanha diversidade. Foi, sem dúvida, um dia em que me senti como um local, a desfrutar de uma experiência tradicional madeirense na serra. Teve de tudo: vistas deslumbrantes, trilhos na natureza, comida partilhada em plena floresta, momentos espontâneos e tradição cultural.
Há algo de único na gastronomia madeirense, sobretudo quando é saboreada ao ar livre, em boa companhia e em plena natureza. E quando se juntam as histórias e os rituais que acompanham estes momentos, percebe-se melhor porque estas tradições perduram há gerações.
O dia resultou num equilíbrio perfeito entre exploração e descanso – a essência de viver um dia na serra, à moda da Madeira. A quem visitar a ilha, recomendo reservar pelo menos um dia assim: longe das multidões, no coração da serra e da floresta, com boa comida, boa companhia e o melhor que a Madeira tem para oferecer.

Porque muitas vezes a melhor forma de conhecer um destino não é através das atrações turísticas e dos museus, mas através do seu povo, das suas paisagens e, claro, da sua gastronomia.
As tradições da Madeira estão vivas em cada canto da ilha. Só é preciso trazer apetite pelo que é tradicional… o resto acontece naturalmente.